O Complexo Arqueológico dos Perdigões: nova imagem e novos problemas proporcionados pela prospecção geofísica (in print) more

Co-authored: Márquez, J.E.; Becker, H., Jiménez, V. e Suárez, J.

Valera, A. C.; Márquez, J.E.; Becker, H., Jiménez, V. e Suárez, J. (no prelo), “O Complexo Arqueológico dos Perdigões: nova imagem e novos problemas proporcionados pela prospecção geofísica”, Xelb,. Actas do 8º Encontro de Arqueologia do Algarve, Silves, C.M.S. O Complexo Arqueológico dos Perdigões: nova imagem e novos problemas proporcionados pela prospecção geofísica. Valera, A. C.; Márquez, J.E.; Becker, H., Jiménez, V. e Suárez, J. Resumo: Neste texto é apresentada a imagem obtida através de prospecções geofísicas para o Complexo Arqueológico dos Perdigões (Reguengos de Monsaraz, Évora), procedendo-se à descrição das principais estruturas identificadas. Sublinha-se a importância desta abordagem metodológica a este tipo de contextos e a excelência dos resultados obtidos, que proporcionam um notável conjunto de novos dados para a investigação, ao mesmo tempo que se constituem como uma importante ferramenta de planeamento, tanto da investigação como da gestão patrimonial do sítio. Abstract: This paper presents the image obtained by caesium magnetometry prospection of the Perdigões Archaeological Complex (Reguengos de Monsaraz, Évora), followed by a description of the main identified structures. We stress the importance of this methodological approach to ditched enclosures and the excellence of the results, providing new important data for research and an important tool for planning (research and heritage managing). 1. Introdução Objecto de um projecto de investigação de referência na arqueologia da Pré-História Recente portuguesa, o complexo de recintos de fossos dos Perdigões notabilizou-se desde 1997 pela imagem proporcionada por fotografia aérea. Pela primeira vez, em Portugal, se obtinha uma perspectiva globalizante do design de um grande sítio composto por recintos de fossos. Todavia, desde o início que se tinha consciência das limitações dessa notável imagem e de que a realidade estrutural era muito mais complexa, como as intervenções no terreno ao longo dos anos iam demonstrando. Em 2008 e 2009, no âmbito do Programa Global de Investigação coordenado pela ERA Arqueologia, a Universidade de Málaga, em articulação com uma equipa da ERA, levou acabo prospecções geofísicas, as quais viriam a proporcionar uma imagem de grande qualidade das estruturas presentes na quase totalidade do complexo, a qual seria completada em 2010 pelo Núcleo de Investigação Arqueológica da Era Arqueologia. Contendo, naturalmente, as suas próprias limitações, esta imagem proporciona uma nova perspectiva da complexidade estrutural do sítio, constituindo-se como uma imprescindível ferramenta de planeamento da investigação, proporcionando um alargamento das problemáticas dessa mesma investigação e demonstrando cabalmente a importância desta abordagem para a investigação e gestão patrimonial deste tipo de realidades arqueológicas. Os resultados permitem começar a abordar, em articulação com as escavações que têm vindo a ser realizadas desde 1997, o problema da temporalidade (central nestes contextos) das suas diversas estruturas, assim como iniciar toda uma nova série de linhas de investigação relativamente à arquitectura e organização espacial do complexo através do seu tempo de vida, baseadas na planimetria que se obteve para os diferentes recintos e estruturas associadas. Neste texto, apresentamos a imagem integral1 proporcionada pelas prospecções geofísicas, numa perspectiva essencialmente descritiva das várias estruturas documentadas, não deixando de enunciar algumas das problemáticas que se vêm potenciadas por este trabalho. 2. Uma breve retrospectiva do processo de descoberta e investigação dos Perdigões Depois da intervenção realizada nos anos oitenta do século XX na área do cromeleque e proximidades (Gomes, 1994), a real dimensão e natureza do Complexo Arqueológico dos Perdigões só foi percepcionada na sequência da surriba de terras para plantio de vinha e dos trabalhos de diagnóstico Esta imagem já foi alvo de uma primeira publicação em castelhano (Márquez, et alli, no prelo), mas ainda sem a área do cromeleque integrada, a qual foi sujeita a prospecção geofísica mais tarde e realizada no âmbito de outro projecto e financiamento (Valera e Becker, 2011). 1 arqueológico que se lhe seguiram em 1997, a cargo da ERA Arqueologia S.A. (Lago et alli, 1998). Logo nessa altura, quer devido à notável fotografia aérea obtida pelo IPPAR, quer através das sondagens diagnóstico realizadas, foi possível constatar que a Oeste do cromeleque se desenvolvia um grande complexo composto por vários recintos de fossos genericamente concêntricos, com uma área de necrópole de sepulcros “tipo tholos” incorporada, verificandose que, no total, o conjunto arqueológico atingia uma área de cerca de 16 ha. De então para cá, a parte (cerca de 2/3) do sítio que pertence à Esporão S.A. ficou sobre reserva arqueológica e iniciou-se um processo de investigação programada dirigida pela ERA Arqueologia S.A., o qual culminaria na estruturação de um Programa Global de Investigação Arqueológica dos Perdigões – INARP, coordenado pela área de investigação (NIA) desta empresa (Valera, Jorge e Lago, 2008). Entre 1998 e 2006, a investigação levada a cabo pelas equipas da ERA Arqueologia centrou-se nas problemáticas das práticas funerárias e na escavação de dois sepulcros (Sepulcros 1 e 2) na área de necrópole localizada do lado Este do conjunto de recintos (Valera et alli, 2000 e 2007, Valera e Godinho, 2009), enquanto se iam estabelecendo colaborações com outras instituições para o desenvolvimento de outras linhas de investigação. Foi o caso dos estudos de arqueometria de cerâmicas (Dias et al., 2008), realizados em parceria com o ITN, primeiro, e a que se juntou mais tarde uma colaboração com investigadores da Universidade de Sevilha e do Instituto de Ciência de Materiais de Sevilha (Odriozola, 2008; Odriozola et al., 2008). Com a estruturação do programa INARP em 2008, a investigação dos Perdigões adquiriu nova dinâmica, abrindo-se e incorporando novas colaborações, permitindo diversificar os estudos relacionados com conjuntos artefactuais e a criação de novas linhas de pesquisa. Este programa, que visa estabelecer as linhas orientadoras para uma política integrada de investigação no complexo dos Perdigões, estruturar-se-ia com base “na ideia de que o crescimento e desenvolvimento dessa investigação, quer ao nível do financiamento, quer ao nível das problemáticas científicas, serão potenciados com a atracção de outras instituições e equipas de investigadores, nacionais e estrangeiros, para colaborarem em todo o proceso” ficando o programa “responsável pela gestão integrada das diferentes linhas de investigação que fossem surgindo, garantido níveis de homogeneidade e replicabilidade entre os diferentes projectos, estabelecendo critérios e prioridades, gerindo e disponibilizando informação e promovendo as relações transversais necessárias à boa persecução do processo de produção de conhecimentos sobre o sítio, nas diferentes escalas contextuais em que se integra” (Valera, Jorge e Lago, 2008: 118). Assim, para além do aprofundamento da problemáticas das práticas e antropologia funerárias (com um novo projecto financiado pela FCT – Silva et alli, 2010), iniciou-se uma linha de investigação que sublinha a importância simbólica do conjunto de recintos na organização do povoamento local durante o 3º milénio a.C., expressa no seu design, na sua posição topográfica e geográfica em relação ao Vale da Ribeira do Álamo e ao “território megalítico” de Reguengos de Monsaraz e na sua vinculação astronómica, privilegiando os aspectos cosmológicos e cognitivos enquanto elementos estruturantes da organização espacial destas comunidades (Valera, 2008; 2011); desenvolveram-se estudos faunísticos e artefactuais, procurando responder a questões de natureza económica, mas também de natureza ideológica e simbólica, nomeadamente no âmbito dos fundamentos ontológicos das relações homem-animal (Costa; 2010; Valera; no prelo a); iniciaram-se projectos orientados para o estudo da componente da metalurgia do cobre (Valera, 2009) e do ouro (sob responsabilidade de Monge Soares - ITN); arrancou-se com a investigação da extraordinária colecção de objectos de marfim (Valera, 2010b). Neste contexto, a Área de Pré-História da Universidade de Málaga (UMA) foi convidada a participar, com o desenvolvimento de um projecto próprio que se integrasse, sem contradições e como sub-projecto, no âmbito do programa global de investigação acima descrito. Assim, e atendendo à linha de investigação aberta nesta universidade desde os finais dos anos 90 sobre sítios de fossos (Jiménez, 2006-2007; 2007; Jiménez y Márquez, 2006, 2010; Márquez 2001, 2003, 2004, 2006a; 2007; no prelo.; Márquez y Fernández Ruiz 2002; Márquez y Jiménez 2008, 2010a, 2010b ; no prelo.; Márquez et al. 1999), foi criado o Projecto de Investigação Arqueológico nos Perdigões da Universidade de Málaga (PERUMA), cujos objectivos foram já enunciados (Márquez et al. 2008). Entre esses objectivos, e para além da participação nos debates sobre metodologias e interpretação dos recintos de fossos que possam ser desenvolvidos no âmbito do INARP (Márquez et al. 2008: 42) e da intervenção arqueológica na porta NE do fosso exterior, destacava-se o de incrementar o conhecimento da planta geral do complexo de recintos. Foi com esse desígnio que se levaram a cabo os trabalhos de prospecção geofísica, que agora passamos a descrever. 3. Sequência dos trabalhos: métodos, áreas e enquadramentos institucionais. Em 2008 e 2009 as prospecções geofísicas foram enquadradas pelo projecto da UMA2, contando com a colaboração da ERA e apoio da Esporão S.A. A primeira abordagem, realizada em 2008, consistiu num conjunto de pequenas áreas prospectadas recorrendo à aplicação de georadar e realizadas pela empresa Eastern Atlas Geophysical Prospection. Foram seleccionadas três áreas: a) a zona da Porta NE, sector de incidência do projecto da UMA, com uma área de 1500 m2; b) área central do complexo de recintos, com 1620m2, coincidindo com a grande macha circular visível na fotografia aérea de 1997; c) numa parcela do Sector I, com 195m2, em área tangencial às escavações da ERA em curso nos fossos de um dos recintos intermédios, e cujo objectivo essencial era testar as potencialidade do método numa zona em que, simultaneamente, se começava a conhecer através de sondagens arqueológicas. Os resultados destas prospecções com recurso a georadar foram muito desiguais e o método resultou de forma apenas sofrível. Se na primeira área (porta NE) se confirmou a existência de um descontinuidade que, com toda a probabilidade, deveria ser a porta pretendida, a informação não melhorava a já As prospecções de 2008 foram financiadas com recursos provenientes do Projecto de Investigação I+D+I HUM2007-63419/HIST da Secretaría de Estado de Universidades e Investigación del Ministerio de Ciencia e Innovación (de Espanha), desenvolvido pela Universidade de Málaga, entitulado “Repensando Tartesos bajo el prisma de la identidad: el componente fenicio”. As prospecções de 2009 foram financiadas com recursos provenientes da Consejería de Innovación, Ciencia y Empresa de la Junta de Andalucía, através do projecto de Investigación de Excelencia P08-HUM-04212, entitulado “Estudio Arqueológico y Gestión Patrimonial en los recintos de fosos del suroeste de la Península Ibérica (Andalucía, Algarve, Alentejo)”. 2 proporcionada pela fotografia aérea. Por outro lado, a mancha central, segundo o georadar, não se relacionaria com estruturas negativas, mas com uma dispersão de blocos de pedra mal definida (o que escavações posteriores – Valera, 2010a – revelariam que só parcialmente era correcto, pois a par de uma potente estrutura em pedra, ocorrem várias estruturas negativas). Finalmente, no Sector I, os resultados foram totalmente contraditórios com o observado na escavação arqueológica, uma vez que não se observavam os fossos que ali estavam a ser escavados. Assim, de um modo geral, concluiu-se que o georadar não era o método mais adequado em função das características e condições do sítio, sendo aconselhável a alteração de método, tendo sido escolhida a magnetometria ultra-alta resolução, que viria a ser aplicada por Helmut Becker (Becker Archaeological Prospection). O magnetómetro de césio Geometrics G-858G foi aplicado numa área de medição não compensada de duas faixas do campo magnético com uma sensibilidade de 20 pT (Picotesla) a um ciclo de 10 Hz (10 medições por segundo). A uma velocidade de marcha normal os resultados numa resolução espacial de 0.12x0.5 metros cada foram extrapolados para 0.25x0.25m. Usando os dois sensores paralelos em duas faixas com 0,5 m de intervalo entre elas (Fig. 1) foi medido o campo magnético total, numa rápida e mais sensível prospecção, com uma mais profunda penetração no subsolo. Estruturas arqueológicas a 5 m de profundidade podem ser detectadas através deste método (para mais detalhes sobre esta metodologia ver Becker 1995, 1999, 2001 e 2009). Fig. 1 – Trabalho de campo com o magnetómetro Geometrics G-858G com dois sensores (resolução 0.1 x 0.5 m) nos Perdigoes As prospecções magnéticas seriam realizadas em duas fases durante 2009, tendo-se abrangido a quase totalidade do sítio arqueológico, ficando de fora apenas a área da necrópole e áreas que, por terem vedações ou vinhas plantadas com elementos muito magnéticos (sobretudo ferro), inviabilizavam a aplicação do método (o caminho que atravessa o sítio de Este para Oeste; a vinha do quadrante Este; uma pequena franja da extremidade sul, recentemente plantada também com vinha). Os resultados obtidos foram, desta feita, de grande qualidade e nitidez (Fig. 2), facto que esteve na base de estender as prospecções à quase totalidade do prospectável do sítio, tendo inclusivamente servido de orientação às escavações que, nesse mesmo ano a ERA Arqueologia iniciava no centro dos recintos. 4. A imagem proporcionada pela geofísica: uma primeira leitura Para uma primeira leitura dos distintos elementos arquitectónicos identificados na imagem proporcionada pela geofísica, há que ter em consideração a prolongada temporalidade do sítio, que os trabalhos de escavação realizados entre 1997 e 2010 têm vindo a evidenciar e que será da ordem dos 1500 anos, onde fossos e fossas se abriram quando outros e outras já estavam colmatadas. Apesar desses avanços já realizados na construção da temporalidade das diferentes estruturas, e que proporcionaram um primeiro ensaio nessa matéria (Valera, 2010a), uma leitura faseada pormenorizada de todas as estruturas requer um apoio documental maior do que aquele que dispomos actualmente, pelo que, de momento, optamos por uma descrição das características gerais do conjunto de estruturas presentes na imagem (Fig. 3), sem tomar em conta a sua cronologia. O primeiro aspecto a destacar é que, no Complexo Arqueológico dos Perdigões, pelo menos onze (podendo ser mais) estruturas de tipo fosso e de tipo paliçada (Fig. 3), que delimitam recintos genericamente concêntricos, algumas das quais se sobrepõem em partes dos respectivos traçados. Um segundo lugar, não é menos eloquente a profusa presença de centenas de estruturas de tipo fossa, que se distribuem pelos vários recintos e áreas exteriores, como por exemplo na área do cromeleque. Fig. 2 – Imagem geral da prospecção magnética dos Perdigões. Fig. 3 – Planta geral dos Perdigões realizada a partir da imagem da prospecção magnética, com numeração de fossos e portas (as quais servirão de referenciação em trabalhos futuros). Para facilitar uma descrição pormenorizada, serão discriminadas quatro áreas específicas. Este emparcelamento não deve ser entendido em termos arquitectónicos, funcionais ou históricos, mas apenas como recurso operativo da exposição. 4.1. Área central Trata-se da área menos afectada pelos referidos vazios da prospecção geofísica. Nela são perceptíveis, pelo menos, quatro recintos (Fig. 4). De dentro para fora, o primeiro (F5) corresponde a uma possível paliçada, que se observa sobretudo no seu traçado mais meridional e que poderá ser dupla. De forma aparentemente paralela e pelo exterior, segue-se o primeiro fosso (F6), o qual se encontra actualmente em escavação nas escavações da ERA Arqueologia no Sector Q (Valera, 2010a). Trata-se de um fosso com uma planta em forma de ogiva irregular, formada por um trajecto subcircular que se torna recto a partir de certo ponto, apresentando uma entrada orientada a NE. Fig. 4 – Imagem magnética da área central e parte da área intermédia do complexo de recintos (de fossos e paliçadas) dos Perdigões. O segundo fosso (F7), desenvolvendo-se de forma paralela relativamente ao primeiro, apresenta a mesma planta em ogiva irregular e entrada alinhada com a anterior, igualmente orientada a NE, mas o seu traçado apresenta um carácter sinuoso irregular (Valera, no prelo b). Por último, o terceiro fosso (F8) apresenta-se pior definido, com uma planta de tendência subcircular, embora concêntrico relativamente aos anteriores. Em partes do seu traçado parece sobrepor-se ao (ou ser sobreposto pelo) segundo fosso. Ainda na zona central, a imagem de geofísica revela a existência de uma grande estrutura circular (A), a qual afecta tangencialmente o Fosso 1 e possivelmente a paliçada (0). As escavações da ERA nesse sector revelaram que a estrutura identificada pela geofísica (e que corta tangencialmente o Fosso 6) não corresponde à mancha escura visível na fotografia aérea e que esta mancha corresponde a uma grande estrutura pétrea e depósitos que a envolvem e cobrem parcialmente (Valera, 2010a). 4.2. Área intermédia É formada por mais três ou quatro linhas de fossos, que delimitam recintos que enquadram o conjunto anterior de forma genericamente concêntrica. Seguindo a mesmo sequência descritiva de dentro para fora, dos Fossos 3 e 4 conformam um recinto definido por estes dois fossos em quase todo o seu traçado, sendo que do lado Norte, em certos troços, os dois fossos parecem sobrepor-se. Apresentam um traçado sinuoso, relativamente regular, ao longo de quase todo o traçado. Sondados em 2007 e 2009 no Sector I, revelaram que provavelmente não terão sido construídos ao mesmo tempo, apontando as cronologias absolutas para uma maior (ainda que ligeira) maior antiguidade do exterior (Valera, 2008a; 2008b; Valera e Silva, 2011). A sua planta apresenta-se obliterada a Este (área não prospectada devido a presença de vinha), pelo que não se tem a percepção da sua configuração integral. No que é visível trata-se de uma planta entre o subcircular e o sub quadrangular, aspecto que pode ficar a dever-se ao aproveitamento do traçado de outros fossos pré-existentes. As plantas definidas pelos fossos seguintes, Fosso 9 e Fosso 10, são difíceis de interpretar. Ambos (em especial o F9) estão afectados pelos vazios da prospecção geofísica e porque, também no caso de F10, se verifica uma clara sobreposição relativamente aos fossos F3 e F4 no lado norte. Ao contrario daqueles, são fossos de traçado linear não sinuoso e, aparentemente, mais estreitos. Ainda nesta área, são inúmeras as estruturas tipo fossa (cerca de uma dezena foram escavadas no Sector I, incluindo duas com utilização funerária – Valera, 2008b; Valera e Godinho, 2009). Para além destas, podem ainda observar-se alguns troço de fossos o paliçadas mal definidos, de contornos pouco precisos, impossíveis de descrever de momento e cuja percepção da planta só poderá ser percebida com trabalhos de escavação. 4.3. Área exterior Trata-se de uma área onde os elementos arquitectónicos voltam a ser relativamente bem perceptíveis. As estruturas que melhor se definem são duas linhas de fossos (F1 e F2) bastante largos, que apresentam um traçado paralelo e cinco entradas alinhadas. A Este, como já era conhecido desde 1997, o fosso mais exterior (F1) desenvolve um semi-círculo onde se localizam estruturas funerárias de tipo tholos (Valera, et al., 2000; 2007). A simetria entre ambos os fossos, já observada na fotografia aérea de 1997, sempre fez supor a sua contemporaneidade, hipótese que sai reforçada agora pela identificação de uma série de pequenos troços (paliçadas ?), a modo de tirantes, que compartimentam em troços relativamente regulares o espaço entre os dois fossos mais de uma dezena destas estruturas. Ainda entre estes dois fossos, na zona norte e noroeste, é possível identificar umas estruturas de troços ortogonais, mais estreitas, cuja interpretação não é clara, mas que poderá corresponder a fundações de estruturas positivas em “caixa de madeira” que se desenvolveriam entre fossos (aspecto que só poderá ser esclarecido mediante escavação). Por outro lado, ao longo do interior do Fosso 2 é observável um espaço vazio, até aparecerem as fossas que pontuam densamente todos os espaços mais interiores. Este espaço livre, em contextos europeus comparáveis, é interpretado como resultado da existência de um “bank” (terrapleno), que acompanharia o referido fosso pelo interior e que poderia ter sido construído com o material resultante da escavação dos fossos. De notar que, em mais nenhum dos fossos referidos esta circunstância é observável e que a existência dessa estrutura, embora sugerida pela geofísica, terá que ser demonstrada através de intervenção arqueológica. Outra das grandes novidades aportadas pelas prospecções geomagnéticas foi a documentação de, pelo menos, 5 entradas no recinto definido pelo duplo fosso exterior (Fossos 1 e 2). Assim, e seguindo a direcção dos ponteiros de relógio, às portas conhecidas até ao momento, a NE (P1) e a SE (P2), juntam-se a P3, orientada a W-SW (menos clara, devido a situar-se sob a zona não prospectada do caminho, mas deduzida a partir do que parece ser um estrutura exterior idêntica a outras presentes noutras duas entradas), a P4 orientada a W e a P5 com uma orientação a N. Todas estas portas correspondem a aberturas que atravessam perpendicularmente os Fossos 1 e 2. Em P2 e P4 (e previsivelmente em P3) observa-se uma complexificação estrutural pelo exterior, que as monumentaliza. Fig. 5 – Pormenor da imagem geomagnética da Porta 2 (SE) Em P2, através das imagens aérea e google, já era perceptível a existência de acrescentos exteriores à entrada (pelo exterior do Fosso 1). Com a imagem proporcionada pela geofísica, é agora bem perceptível a planta desse conjunto de estruturas (Fig. 5), as quais poderão ou não ter um carácter cumulativo, e portanto diacrónico. Primeiro, imediatamente em frente à entrada, regista-se uma fina sanja semicircular, a modo de perfil de imbrice (eventualmente a fundação de troço de paliçada de madeira), dificulta o acesso, lateralizando-o. Recorda as frequentes estruturas designadas de tipo fence que abundam nos recintos europeus da mesma época. Em segundo lugar, distinguem-se com grande nitidez dois troços de sanjas de grande largura, de tendência igualmente semicircular, apresentando uma descontinuidade entre si em frente à entrada e à estrutura tipo fence anteriormente descrita e não encostando ao Fosso 1 (deixando assim três passagens, uma central e duas lateriais). Estas últimas estruturas conferem ao conjunto uma morfologia semelhante às famosas “pinças de caranguejo), típicas (embora não exclusivas) do Neolítico do território francês (embora o facto de não arrancarem directamente da parede do fosso exterior lhes confira uma particularidade relativamente aos modelos clássicos europeus). Já no que se refere a P4, até ao momento desconhecida, apresenta uma ligeira “esvasamento” das extremidades do Fosso 1. Pelo exterior, a sua estruturação é semelhante à de P2, com o mesmo elemento tipo fence e os dois troços de largas sanjas ligeiramente arqueadas, que evocam as “pinças de carangueijo”. Este design de entrada, que se repete nas portas P2 e P4 (e previsivelmente em P3 – não podendo ser excluído em P1 e P5, uma vez que o caminho que lhes passa em tangente pelo exterior apresenta inúmeras anomalias magnéticas, que perturbam a leitura geofísica) parece, assim, não ser pontual, podendo corresponder a um modelo característico dos Perdigões (que poderemos futuramente designar como entrada tipo Perdigões, sem esquecer que o design final poderá corresponder a uma construção sincrónica ou diferida no tempo). Por último, cabe ainda salientar a existência de um último fosso (F11), que se detecta pelo exterior do Fosso 1 e na zona N e W e que a SW inflecte para zonas interiores do recinto definido por F1 e F2, sendo claramente cortado por estes. Trata-se de um fosso que foi parcialmente afectado pelo plantio de vinha a W-SW. 4.4. Área do cromeleque Nesta área, localizada a Este do espaço semi-circular de necrópole delimitado pelos Fossos 1 e 2, as prospecções magnéticas foram realizadas em 2010, no âmbito de um projecto do NIA financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Abrangendo uma área de cerca de 2,7 ha, os resultados não permitiram obter uma imagem definida da estruturação do cromeleque. Em contrário, permite perceber a presença de inúmeras estruturas tipo fossas dispersas pela área, embora com uma densidade em nada comparável com o que se observa no interior dos recintos. Entre a nova informação, ganha destaque a clara identificação de um monumento funerário de câmara e corredor, orientado a Este, e que apresenta um tumulus circular, com limites visíveis na imagem (Fig. 6). Encontra-se muito próximo da zona de necrópole delimitada pelos Fossos 1 e 2, mas já fora dela, podendo corresponder a uma das manchas de concentração de fragmentos de xisto identificadas nas prospecções de 1997 (Lago et al. 1998), que foram registadas como zonas de possíveis estruturas funerárias. Fig. 6 – Pormenor da imagem geomagnética onde é visível a estrutura tumular pelo exterior do Fosso 1. Finalmente, na extremidade Norte da imagem é possível observar uma anomalia que poderá eventualmente corresponder a um troço de fosso, enquanto que na restante área se pode perceber a existência de uma série de ténues anomalias, que poderão eventualmente corresponder a estruturas que, contudo, não se apresentam com suficiente definição. 5. Considerações finais Depois da sua identificação nos anos 80 do século XX, o Complexo Arqueológico dos Perdigões converteu-se, até aos dias de hoje, num dos sítios incontornáveis da invetigação da Pré-História Recente Peninsular, onde sobressai a sua particular filosofia de colaboração entre diferentes investigadores e instituições enquadrada pelo Programa Global de Investigação Arqueológica dos Perdigões (INARP), cujos pressupostos foram recentemente publicados (Valera, Jorge e Lago, 2008). Neste contexto, os resultados proporcionados pelas prospecções geofísicas levadas a cabo entre 2008 e 2010, no âmbito da colaboração com a Universidade de Málaga e de um projecto do NIA, constituem-se como mais um marco desse processo. Ao permitir um aprofundamento significativo do conhecimento da planimetria, complexidade e densidade das estruturas existentes, a imagem obtida constitui-se como uma notável ferramenta de trabalho e planificação, tanto em termos de investigação, como em termos de salvaguarda e gestão patrimonial deste cada vez mais importante e internacionalmente conhecido contexto. Trata-se de um incremento excepcional do conhecimento geral do sítio e que só poderia ser obtido através da aplicação sistemática deste método, produzindo resultados excelentes num curto espaço de tempo e com custos mínimos (face às décadas e aportes financeiros incalculáveis que a abordagem arqueológica tradicional implicaria para a obtenção de informação semelhante). Confirma-se, assim, que a conjugação da prospecção geofísica sistemática, conjugada com a fotografia aérea e a progressiva, mas lenta e dispendiosa, intervenção arqueológica intrusiva, é a abordagem mais adequada a este tipo de contextos arqueológicos. Insistir em estudos parciais isolados, sondagens arqueológicas descontextualizadas e análises pontuais de estruturas e seus enchimentos, sem ter em conta a uma visão global do sítio (quando ela é possível de obter), apenas nos poderá conduzir a perspectivas muito limitadas desta fenomenologia arqueológica, com as inevitáveis problemas interpretativos que daí resultam. Em concreto, dispomos agora de um conhecimento relativamente preciso da planimetria dos fossos já identificáveis através da fotografia aérea e de outros que não eram nela totalmente perceptíveis. Elementos ainda inéditos estão agora bem documentados. É o caso do carácter sinuoso de alguns dos fossos, da presença de possíveis paliçadas e a multiplicação da informação relativa à estruturação e orientação das entradas em vários dos recintos, onde se destacam o design complexo e monumental que assumem, pelo exterior, as portas (P2 e P4) do Fosso 1 (para o qual propomos a designação “entrada tipo Perdigões”). Na área da necrópole Este, está agora confirmada a presença de, pelo menos, um monumento de câmara e corredor com tumulus que se situa fora da área semi-circular delimitada pelos Fossos 1 e 2. Finalmente, cabe ainda destacar nesta imagem a extraordinária densidade de estruturas negativas tipo fossa, de diferentes tamanhos e frequentemente sobrepostas, que se distribuem pelo interior dos diferentes recintos e mesmo pela área do cromeleque. Em suma, a radiografia de conjunto do Complexo dos Perdigões, com que a partir de agora contamos, apresenta uma notável definição, que permite apreciar a especial complexidade estrutural dos recintos de fossos peninsulares. Porém, sabemos que esta imagem actual é cumulativa e que não pode ser entendida em termos históricos como uma unidade, facto que nos coloca ante a necessária tarefa (já iniciada – Valera, 2010; Valera e Silva, 2011) de construir a sua temporalidade. Agradecimentos A maior parte dos terrenos prospectados à empresa Esporão S.A., a quem agradecemos (na pessoa do Dr. José Roquette) o apoio e colaboração prestada e as facilidades concedidas ao desenvolvimento das actividades arqueológicas objecto do presente texto. Do mesmo modo, estendemos essa agradecimento à cooperação dos restantes proprietários envolvidos: Rolando Palma, Fernando Marcão e Gertrudes Gonçalves. Bibliografia Becker, H., 1995. “From Nanotesla to Picotesla - a new window for magnetic prospecting in archaeology.” Archaeological Prospection, 2, 217-228. Becker, H., 1999. “Ultra high resolution caesium magnetometry at Monte da Ponte, Concelho Evora, Portugal 1994-1996”. Arbeitsh. Bayer. Landesamt f. Denkmalpfl., 108, 123-126. Becker, H., 2001, “Duo- and quadro-sensor configuration for high-speed / highresolution magnetic prospecting with caesium magnetometry”. Monuments and Sites, 6, 20-25. Becker, H. (2009), “Caesium-magnetometry for landscape-archaeology”. 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